Vanda Witoto é a flecha do povo do Amazonas.
Mulher indígena, trabalhadora, do interior e moradora da periferia de Manaus, Vanda nasceu em Amaturá, no Alto Solimões. Seu povo, Witoto, refugiou-se no Brasil no início do século XX, fugindo do genocídio provocado pela exploração da borracha. Famílias atravessaram a região do rio Putumayo para escapar da escravização e das perseguições. Durante décadas, precisaram ocultar suas identidades.
Ainda adolescente, Vanda foi levada a Manaus para viver uma realidade que milhares de mulheres conhecem: ser empregada doméstica. Enfrentou um regime de semiescravidão, preconceito, dificuldades e violência, mas nunca abriu mão de estudar.
Foi pela educação que começou a transformar a própria história. Tornou-se técnica de enfermagem e pedagoga formada pela Universidade do Estado do Amazonas. Na universidade, fortaleceu sua identidade indígena e ajudou a organizar estudantes para ampliar o acesso e a permanência no ensino superior, onde se tornou coordenadora do Movimento dos Estudantes Indígenas do Amazonas, o MEIAM. Foi por meio da política de cotas que Vanda conseguiu ingressar na universidade e fortalecer sua identidade e sua atuação junto a outros estudantes indígenas.
Mas Vanda nunca esqueceu de onde veio.
Moradora do Parque das Tribos, território de luta e reivindicação popular por moradia, na periferia de Manaus, transformou a própria comunidade em território de luta e realização.
Durante a pandemia, quando faltavam atendimento, equipamentos e oxigênio, Vanda colocou sua formação na área da saúde a serviço da população. Ajudou a organizar uma unidade comunitária de atendimento durante a crise do oxigênio, mobilizou doações em todo o Brasil, produziu máscaras com outras mulheres e chegou a transformar o próprio carro em ambulância para socorrer moradores.
Em reconhecimento ao seu trabalho, em 18 de janeiro de 2021, tornou-se a primeira pessoa vacinada contra a Covid-19 no Amazonas. A imagem de Vanda, mulher indígena e profissional da saúde, recebendo a vacina correu o Brasil e o mundo.
Mas ela não parou ali.
Vanda ajudou a lutar pela chegada de uma Unidade de Saúde da Família ao Parque das Tribos, levando atendimento para uma população que, por anos, conviveu com o abandono do poder público.
Como pedagoga, criou a Jofo Nimairama, uma escola de saberes ancestrais que hoje atende dezenas de crianças de diferentes povos indígenas, fortalecendo educação, identidade, cultura e autoestima.
Como empreendedora, criou o Ateliê Derequine, que nasceu durante a pandemia e se transformou em uma iniciativa de moda indígena que gera emprego e renda para mulheres da periferia. Mulheres que encontraram no trabalho uma oportunidade de sustentar suas famílias e conquistar independência financeira.
Vanda também fundou o Instituto Witoto, que desenvolve projetos de educação, empregabilidade, cultura, geração de renda, segurança alimentar e fortalecimento das comunidades indígenas urbanas.
Múltipla, como tantas mulheres, Vanda é professora, profissional da saúde, empreendedora, ativista climática e palestrante. Sua luta por moradias dignas também gerou frutos. Por meio da luta junto à comunidade, conseguiram a implementação de 576 moradias populares do Minha Casa, Minha Vida no Parque das Tribos, retirando famílias de áreas de risco e garantindo mais dignidade. Por isso, teve destaque na inauguração do residencial, com a presença do presidente Lula, no dia 26 de maio de 2026. Além de casas, ela também lutou por água, esgoto, coleta de resíduos, energia e pavimentação.
Seu trabalho ultrapassou as fronteiras do Amazonas. Vanda levou a voz do Amazonas para espaços nacionais e internacionais, participou das COPs do Clima e da Climate Week de Nova York e palestrou no MIT, uma das universidades mais reconhecidas do mundo. Em 2026, também foi convidada a falar na Universidade Harvard, durante o Lemann Dialogue, levando a experiência e a voz dos povos da Amazônia a uma das mais importantes universidades do mundo. Como ativista climática, leva a mensagem de que as pessoas continuam olhando para a Amazônia com um olhar de satélite, de cima, enxergando apenas as árvores e os rios. Vanda propõe inverter esse olhar: é preciso olhar para as pessoas. Sua provocação é direta: é preciso cuidar de quem cuida da floresta.
Em tempos de mudanças climáticas que afetam diretamente a vida das pessoas, com ondas de calor recordes, secas extremas, enchentes e queimadas, Vanda ergue sua voz e seu maracá, reivindicando políticas públicas de adaptação, mitigação e enfrentamento às perdas e aos danos. Ela chama a atenção para uma realidade injusta: as periferias e as comunidades tradicionais, que menos contribuem para as mudanças climáticas, são justamente as mais afetadas por suas consequências.
Em 2022, Vanda entrou para a história: em sua primeira campanha política, tornou-se a mulher indígena candidata a deputada federal mais votada da história do Amazonas, com 25.545 votos. Em 2024, quase foi eleita vereadora de Manaus: recebeu 8.374 votos, mais do que 19 vereadores eleitos. Mesmo com essa votação expressiva, não conquistou uma cadeira porque, pelas regras do sistema proporcional, sua federação partidária não alcançou o quociente eleitoral necessário.
Agora, Vanda está mais forte e mais preparada para levar toda a sua experiência para Brasília. Desta vez, ela tem chances reais de conquistar uma cadeira na Câmara dos Deputados e fazer da voz do povo do Amazonas uma força dentro do Congresso Nacional.
Sua trajetória também recebeu importantes reconhecimentos. Foi vencedora do Prêmio Sim à Igualdade Racial 2024, na categoria Liderança, e chegou à final do Prêmio Empreendedor Social 2025, promovido pela Folha de S.Paulo e pela Fundação Schwab.
Mas a história de Vanda não é importante porque chegou ao mundo. É importante porque nunca deixou de começar no Amazonas: na menina do interior que precisou trabalhar cedo; na empregada doméstica que conciliava o trabalho em três casas de família para ganhar R$ 100 e acordava de madrugada para conseguir estudar; na profissional da saúde que cuidou de gente quando mais precisavam; na professora que abriu espaço para crianças aprenderem; na empreendedora que gera oportunidades para outras mulheres; e na liderança que vive na periferia e conhece de perto a falta de água, saneamento, saúde, educação, emprego e oportunidades.
Vanda conhece essas dificuldades não porque alguém contou para ela. Ela viveu muitas delas. E mostrou, mesmo sem mandato, que sabe mobilizar pessoas, construir soluções, cobrar o poder público e transformar luta em resultado.
Junto com seu formigueiro, ela vai lutar por saúde e educação de qualidade, emprego e renda, oportunidades para os jovens, proteção às mulheres e às crianças, dignidade para as periferias, desenvolvimento para o interior e proteção da Amazônia e de seus povos.
Porque o Amazonas precisa ser representado por quem conhece a sua realidade, e Vanda Witoto é uma de nós.
Do interior à periferia, da periferia para o mundo. E agora, do Amazonas para Brasília.
Vanda Witoto é a flecha do povo